Na rotina da medicina veterinária, a anestesia geral é parte do dia a dia: castrações, remoção de tumores, procedimentos odontológicos, exames de imagem, cirurgias ortopédicas e muito mais.
Entre as técnicas disponíveis, a anestesia inalatória é uma das mais usadas em cães e gatos, especialmente por oferecer maior controle da profundidade anestésica e recuperação geralmente mais previsível, quando bem planejada e monitorada.
As diretrizes da AAHA para anestesia e monitorização em cães e gatos reforçam justamente esse ponto: segurança depende de planejamento, equipamento adequado e monitorização sistemática.
Neste artigo, vamos revisar os fundamentos da anestesia inalatória e os parâmetros básicos de monitorização, com foco em pequenos animais, sem entrar em protocolos de fármacos ou doses, que sempre devem ser definidos por médicos-veterinários habilitados, considerando cada paciente.
O que é anestesia inalatória na medicina veterinária?
Na anestesia inalatória, o paciente é mantido sob anestesia geral principalmente por meio de agentes anestésicos voláteis (como isofluorano e sevofluorano) administrados pelos pulmões, misturados ao oxigênio, através de:
- ou, em alguns casos, máscaras laríngeas específicas.
Esses agentes são vaporizados em uma máquina de anestesia, passam por um circuito respiratório (com ou sem reinalação) e chegam aos pulmões, de onde são absorvidos pela circulação e atingem o sistema nervoso central, produzindo inconsciência, imobilidade e, quando combinado a analgésicos, conforto para o paciente.
A grande vantagem é a possibilidade de ajustar rapidamente a concentração inspirada de anestésico, modulando a profundidade de acordo com a resposta do paciente e a fase da cirurgia.
Componentes básicos de um sistema de anestesia inalatória
De forma simplificada, o sistema de anestesia inalatória em cães e gatos inclui:
- Fonte de oxigênio (cilindro ou rede);
- Fluxômetro, que regula o fluxo de gás fresco;
- Vaporizador calibrado para o agente (ex.: isofluorano, sevofluorano);
- Circuito respiratório (reinalante ou não reinalante, conforme peso e condição do paciente);
- Válvula limitadora de pressão (pop-off/APL);
- Sistema de exaustão (scavenger) para gases anestésicos residuais.
Diretrizes e revisões em anestesia veterinária reforçam a importância de checagens pré-uso da máquina (teste de pressão, verificação de vazamentos, checagem de O₂ e nível de anestésico volátil) antes de cada procedimento.
Além disso, há preocupação crescente com a poluição ambiental por anestésicos voláteis em centros cirúrgicos veterinários, o que torna sistemas de exaustão e manutenção preventiva ainda mais relevantes.
Por que a monitorização é fundamental?
Mesmo quando tudo parece estável, anestesia é sempre uma intervenção de risco. Estudos em pequenos animais mostram que a mortalidade anestésica está associada a fatores como condição clínica prévia, tipo de procedimento, experiência da equipe e qualidade da monitorização.
Diretrizes recentes da ACVAA (American College of Veterinary Anesthesia and Analgesia) sobre monitorização em pequenos animais enfatizam que:
- um profissional deve ser designado especificamente para monitorar o paciente durante sedação e anestesia;
- a monitorização deve começar antes da indução e seguir até a recuperação;
- é necessário acompanhar, no mínimo:
- dor e profundidade anestésica.
Em outras palavras: não basta “dar anestesia” e olhar o animal só de vez em quando. É preciso monitorar continuamente e registrar dados para guiar intervenções.
Monitorização básica: o que observar na anestesia inalatória
1. Circulação: frequência cardíaca, ritmo e perfusão
A circulação pode ser acompanhada de forma clínica e instrumental.
Monitorização clínica:
- auscultar o coração com estetoscópio;
- palpar pulsos periféricos (femoral, dorsal do pé);
- observar coloração de mucosas e tempo de preenchimento capilar (TPC).
Monitorização instrumental:
- ECG (eletrocardiograma) para ritmo e frequência;
- pressão arterial (doppler ou método oscilométrico).
Guidelines de monitorização em pequenos animais recomendam que a pressão arterial seja acompanhada ao longo de toda a anestesia, sempre que possível, pois hipotensão é uma das complicações mais frequentes.
2. Oxigenação: mucosas e oxímetro de pulso
A oxigenação diz respeito à quantidade de oxigênio disponível no sangue arterial.
Monitorização clínica:
- cor de mucosas (rosadas, pálidas, cianóticas);
- sinais de esforço respiratório.
Monitorização instrumental:
- oxímetro de pulso (SpO₂) – hoje considerado equipamento básico em anestesia veterinária, capaz de estimar a saturação de oxigênio e a frequência cardíaca.
A literatura reforça que o uso sistemático de oxímetro de pulso ajuda a detectar precocemente hipoxemia e orientar intervenções (ajuste de fluxo de O₂, ventilação assistida, revisão de posicionamento).
3. Ventilação: frequência respiratória e capnografia
Na anestesia inalatória, o anestésico entra e sai pelo sistema respiratório, então ventilação adequada é chave.
Monitorização clínica:
- contagem da frequência respiratória;
- amplitude dos movimentos torácicos/abdominais;
- observação do balão do circuito.
Monitorização instrumental:
- capnografia (ETCO₂) – mede o dióxido de carbono ao final da expiração, fornecendo informação indireta sobre ventilação, metabolismo e circulação.
Capnografia associada à oximetria de pulso permite monitorização cardiorrespiratória contínua, batimento a batimento e respiração a respiração, sendo fortemente recomendada nos guidelines de anestesia e monitorização.
4. Pressão arterial: doppler e oscilométrico
A pressão arterial é um dos indicadores mais importantes de segurança anestésica. Hipotensão prolongada pode comprometer perfusão renal, cerebral e de outros órgãos.
Métodos mais usados na rotina de pequenos animais:
- doppler vascular com manguito adequado;
- oscilométrico (muitas vezes integrado a monitores multiparamétricos).
Guidelines australianos, da ACVAA e de conselhos profissionais destacam a importância de medir pressão arterial em intervalos regulares durante anestesia, idealmente, a cada 5 minutos.
5. Temperatura corporal
Hipotermia é uma complicação extremamente comum em cães e gatos anestesiados, especialmente em procedimentos mais longos ou em pacientes de pequeno porte.
Monitorizar a temperatura (via sonda esofágica, retal ou esofágica distal, conforme o caso) ajuda a:
- ajustar cobertores térmicos, colchões aquecidos e fluidos aquecidos;
- reduzir tremores e dor no pós-operatório;
6. Profundidade anestésica e dor
Monitorizar anestesia não é só olhar para números. A avaliação da profundidade anestésica e da analgesia passa também por:
- reflexos (palpebral, corneano, laríngeo);
- tônus muscular, posição dos olhos;
- variações de pressão, frequência cardíaca e respiratória diante de estímulos cirúrgicos.
As diretrizes globais da WSAVA sobre dor em pequenos animais reforçam que controle de dor é parte essencial da anestesia segura, e que a ausência de reação “visível” não significa ausência de dor.
Organização da rotina: checklist, registros e equipe
Mais do que equipamentos isolados, segurança anestésica depende de processo. Guidelines internacionais de anestesia e monitorização recomendam:
- checklists pré-anestésicos (equipamentos, fármacos, material de emergência, paciente);
- avaliação prévia do paciente (classificação de risco, exames, jejum adequado);
- registro sistemático de parâmetros (PA, FC, FR, SpO₂, ETCO₂, temperatura) em ficha anestésica;
- presença de um profissional dedicado exclusivamente à anestesia durante todo o procedimento;
- monitorização até a recuperação e alta da sala de recuperação anestésica.
Esses passos ajudam a padronizar a prática, facilitando o raciocínio em momentos críticos e melhorando a comunicação da equipe.
Como a UC se conecta: equipamentos para monitorização veterinária
Na prática, colocar em ação tudo isso exige estrutura mínima de equipamentos. Entre os recursos que facilitam a implementação das boas práticas, destacam-se:
Na Utilidades Clínicas, a categoria de Veterinária reúne equipamentos voltados especificamente para clínicas, hospitais e centros cirúrgicos veterinários, com procedência e suporte técnico.
Conclusão
A anestesia inalatória é uma ferramenta poderosa na medicina veterinária, mas seu uso seguro depende de três pilares:
- Planejamento anestésico individualizado, considerando espécie, porte, condição clínica e procedimento;
- Equipamentos adequados, tanto para administração de anestésicos quanto para monitorização;
- Rotina estruturada de monitorização, do pré-anestésico até a recuperação.
Seguir recomendações de entidades como AAHA, ACVAA, WSAVA e sociedades nacionais de anestesia veterinária ajuda a transformar o ato anestésico em um processo mais previsível, com menor risco de complicações e maior bem-estar para o paciente.
A proposta da Utilidades Clínicas é apoiar esse cuidado, oferecendo equipamentos e insumos que façam sentido para a realidade da clínica veterinária brasileira, sempre em diálogo com as melhores práticas e a ciência disponível.
Fontes