Barreira estéril: campo, avental e técnicas 

Barreira estéril: campo, avental e técnicas 

Em qualquer centro cirúrgico, ambulatório de procedimentos ou consultório que realize intervenções invasivas, a regra é clara: o campo estéril é a fronteira entre segurança e risco

Campos, aventais cirúrgicos, luvas e demais barreiras têm como objetivo principal reduzir a exposição da ferida operatória a microrganismos, ajudando na prevenção de infecções de sítio cirúrgico (ISC).

As diretrizes globais da OMS e revisões sobre drapes e gowns reforçam que campos e aventais estéreis criam uma barreira física entre a ferida, a equipe e o ambiente, contribuindo para diminuir contaminação da área operatória

Neste artigo, vamos organizar o tema em três partes: conceito de barreira estérilpapel do campo cirúrgicopapel do avental estéril e técnicas assépticas essenciais para manter essa barreira íntegra na prática. 

1. O que é barreira estéril e por que ela é tão importante? 

Do ponto de vista de controle de infecção, a barreira estéril é o conjunto de materiais e técnicas que impedem ou reduzem a passagem de microrganismos entre: 

  • a equipe cirúrgica e o campo operatório; 
  • o paciente e o ambiente; 
  • superfícies potencialmente contaminadas e instrumentos/área de incisão. 

Ela é composta principalmente por: 

  • campos cirúrgicos estéreis (simples e fenestrados); 
  • aventais cirúrgicos estéreis; 
  • luvas estéreis; 
  • coberturas de mesas, bandejas e equipamentos. 

As Diretrizes de Prevenção de Infecção de Sítio Cirúrgico da OMS apontam que tanto campos e aventais descartáveis (TNT) quanto campos e aventais reutilizáveis (tecido) podem ser usados, desde que estéreis e com desempenho adequado de barreira. 

Estudos brasileiros, como a avaliação da barreira microbiana de campos cirúrgicos em tecido de algodão, reforçam que materiais de barreira têm papel significativo na redução de infecções, desde que mantidas as características físico–microbiológicas ao longo dos reprocessamentos. 

2. Referências normativas e diretrizes  

No Brasil, a barreira estéril é abordada em diferentes documentações oficiais e referências técnicas: 

  • RDC Anvisa nº 15/2012 – dispõe sobre requisitos de boas práticas para o processamento de produtos para saúde (inclui campos e aventais classificados como produtos críticos que devem ser esterilizados). 
  • Manuais de Processamento de Produtos para a Saúde (Ministério da Saúde e secretarias estaduais/municipais) – detalham classificação de produtos, etapas de limpeza, preparo, embalagem, esterilização e armazenamento na CME. 
  • Manual “Cirurgias Seguras Salvam Vidas” (OMS/Ministério da Saúde) – destaca o uso de campos e aventais estéreis como parte da estratégia de cirurgia segura e prevenção de infecção. 
  • Diretrizes de enfermagem perioperatória e processamento de produtos da SOBECC – consolidam práticas recomendadas para centro cirúrgico, recuperação anestésica e CME, incluindo uso e manejo de campos, aventais e demais barreiras. 
  • Orientações de segurança do paciente da Anvisa – reforçam cirurgia segura, higiene das mãos, uso de barreiras e avaliação de práticas de segurança. 

Essas referências estruturam o “porquê” e o “como” da barreira estéril: não é apenas protocolo local, mas parte de políticas de segurança do paciente reconhecidas internacionalmente. 

3. Campo cirúrgico estéril: função, tipos e uso correto 

3.1. Função do campo cirúrgico 

O campo cirúrgico estéril tem duas funções principais

  1. Isolar a área operatória do restante do corpo do paciente e do ambiente; 
  1. Proteger superfícies e equipamentos de respingos de sangue e outros fluidos, reduzindo contaminação cruzada. 

Revisões da OMS e guidelines clássicas de prevenção de infecção de sítio cirúrgico descrevem os campos estéreis como barreiras entre as superfícies não preparadas e a área de incisão, reduzindo deposição de microrganismos na ferida

3.2. Tipos de campo cirúrgico 

Em geral, podemos agrupar os campos em: 

  • Campos simples (sem fenestra) 
    Usados para cobrir a parte do corpo não envolvida no procedimento, superfícies, mesas de instrumental, suportes diversos. 
  • Campos fenestrados 
    Possuem abertura específica que delimita a área de incisão, favorecendo a visualização do campo operatório e a proteção das superfícies adjacentes. 

Quanto ao material, podem ser: 

  • Reutilizáveis (tecido de algodão / sarja) 
    Exigem processamento completo na CME (limpeza, inspeção, preparo, embalagem, esterilização e controle de integridade da barreira ao longo dos ciclos). Estudos brasileiros mostram que, após um número elevado de processamentos, pode haver perda de capacidade de barreira, exigindo substituição conforme normas internas e ABNT. 
  • Descartáveis (TNT, SMS e similares) 
    De uso único, com especificação de gramatura e desempenho de barreira definidos pelo fabricante, seguindo normas técnicas e requisitos de registro na Anvisa

A escolha entre reutilizável e descartável deve considerar perfil de procedimentos, volume cirúrgico, capacidade de CME e análise de custo–efetividade, sempre garantindo que o material utilizado mantenha desempenho de barreira e integridade após esterilização (no caso dos reutilizáveis). 

3.3. Sequência básica para montagem do campo estéril 

Em linhas gerais (podendo variar conforme protocolo institucional): 

  1. Preparar a pele do paciente com antisséptico adequado, respeitando tempo de contato e técnica recomendada. 
  1. Posicionar campos simples para cobrir áreas ao redor da incisão, protegendo lençóis, mesas e superfícies. 
  1. Aplicar o campo fenestrado, de forma que a abertura delimite a área de cirurgia, sem deixar pele descoberta fora da região preparada. 
  1. Fixar adesivos laterais, quando presentes, evitando formação de “bolsas” ou dobras que possam acumular líquidos. 
  1. Garantir que bordas do campo não escorram para áreas não preparadas e que a equipe não “puxe” o campo para fora da região estéril. 

Algumas regras clássicas da técnica asséptica ajudam a manter o campo: 

  • considerar contaminada a faixa de cerca de 2,5–5 cm das bordas dos campos; 
  • evitar reposicionar campos após contato com superfícies não estéreis; 
  • manter cabos de dispositivos (eletrocautério, aspiração etc.) posicionados de forma a não cruzar regiões não preparadas sobre o campo. 

4. Avental cirúrgico estéril: proteção da equipe e do campo 

4.1. Papel do avental estéril 

O avental cirúrgico estéril é utilizado pela equipe paramentada (cirurgiã(o), auxiliar, instrumentadora) para: 

  • criar uma barreira entre a roupa privativa e o campo operatório; 
  • reduzir a disseminação de microrganismos da equipe para a ferida; 
  • proteger a equipe de sangue e outros fluidos. 

Guidelines da OMS e do CDC recomendam que a equipe use aventais estéreis durante procedimentos cirúrgicos, como parte da estratégia de prevenção de infecção de sítio cirúrgico e de biossegurança ocupacional. 

4.2. Tipos de avental e desempenho de barreira 

De forma simplificada, os aventais podem ser: 

  • Reutilizáveis (tecido) – exigem processamento adequado (lavagem, inspeção, reparos, esterilização) e monitoramento da integridade do tecido, especialmente em áreas de maior exposição a fluidos. 
  • Descartáveis (SMS, TNT e combinações) – projetados com diferentes níveis de proteção (standard, reforçado, grau de repelência a fluidos e álcool), seguindo normas técnicas e requisitos regulatórios da Anvisa para produtos para saúde. 

A escolha do avental deve considerar: 

  • tipo de procedimento (limpo, potencialmente contaminado, muito exsudativo); 
  • volume esperado de fluidos; 
  • posição da equipe e tempo cirúrgico; 
  • políticas de controle de infecção do serviço. 

4.3. Paramentação cirúrgica: sequência e pontos críticos 

Documentos como “Diretrizes e Barreiras para a Paramentação Cirúrgica” e materiais de ergonomia e higiene das mãos orientam uma sequência que, resumidamente, inclui: 

  1. Vestimenta privativa adequada do centro cirúrgico (pijama privativo, touca cobrindo todo o cabelo, máscara cobrindo nariz e boca, proteção ocular conforme risco). 
  1. Higienização cirúrgica das mãos e antebraços, com produto apropriado, respeitando tempo mínimo de fricção e técnica padronizada. 
  1. Secagem com compressa estéril, antes de vestir o avental. 
  1. Vestir o avental estéril, mantendo mãos dentro das mangas até receber auxílio para amarrar e ajustar. 
  1. Calçar luvas estéreis, por técnica fechada ou aberta, conforme rotina do serviço. 
  1. Manter-se dentro da chamada “área estéril” do avental (região frontal entre tórax e joelhos, incluindo mangas até 5 cm acima dos cotovelos), evitando contato dessa área com superfícies não estéreis. 

Ao longo do procedimento, é importante: 

  • trocar aventais com ruptura ou molhados de forma significativa; 
  • avaliar necessidade de dupla luva em procedimentos com maior risco de perfuração; 
  • evitar cruzar braços ou encostar o tórax em superfícies não estéreis. 

5. Técnicas assépticas para manter a barreira estéril 

Não basta ter campo e avental adequados: a técnica da equipe é decisiva. Alguns princípios gerais, presentes em manuais de cirurgia segura, controle de infecção e paramentação, incluem: 

  • Definir claramente o campo estéril: área de incisão, campos, mesas de instrumental, aventais da equipe paramentada. 
  • Manter mãos e braços acima da cintura e dentro do campo visual. Regra prática: “se você não consegue ver suas mãos, provavelmente está fora da área segura”. 
  • Evitar virar as costas para o campo estéril, especialmente a instrumentadora e a equipe que manipula materiais. 
  • Reduzir trânsito de pessoas e abertura de portas durante o procedimento, minimizando turbulência de ar e risco de contaminação. 
  • Abrir materiais estéreis somente quando necessários, evitando exposição prolongada. 
  • Garantir que todo material que penetre em tecidos estéreis ou sistema vascular esteja devidamente esterilizado e com embalagem íntegra, conforme RDC 15 e manuais de processamento. 
  • Manter atenção à higiene das mãos antes e após o contato com o paciente, mesmo quando se utiliza luvas e barreiras, conforme estratégia multimodal da OMS e documentos da Anvisa sobre higienização das mãos. 

Quando há quebra evidente de técnica (campo que desliza e expõe pele não preparada, avental rasgado, luvas perfuradas), a conduta é rever o campo ou substituir o item conforme protocolo institucional, mesmo que isso signifique pausar o procedimento. 

6. Integração com CME e segurança do paciente 

A barreira estéril começa muito antes da sala de cirurgia: 

  • na CME, com limpeza, inspeção, preparo, embalagem, esterilização e rastreabilidade dos campos e aventais reutilizáveis; 
  • na definição de kits cirúrgicos com combinação de campos, aventais, compressas, coberturas de mesa, envelopes e rolos para esterilização, adequados aos procedimentos daquele serviço; 
  • na articulação entre CCIH, CME e centro cirúrgico para revisar indicadores de infecção de sítio cirúrgico, eventos adversos e aderência à lista de verificação de cirurgia segura. 

Para o paciente, o resultado dessa engrenagem é simples de entender: menos risco de infecção, recuperação mais segura e confiança maior no serviço

7. Como a Utilidades Clínicas apoia a construção da barreira estéril 

Na rotina prática, a escolha de produtos influencia diretamente a qualidade da barreira estéril. A UC oferece, por exemplo: 

A ideia é facilitar a montagem de kits e rotinas compatíveis com as boas práticas descritas em normas nacionais e diretrizes internacionais, mantendo o foco em segurança do paciente e do time assistencial. 

Conclusão 

Barreira estéril não é detalhe de protocolo, é eixo central da segurança cirúrgica. 

Campos, aventais e técnicas assépticas bem aplicadas: 

  • reduzem o risco de infecção de sítio cirúrgico; 
  • protegem a equipe de exposição a sangue e fluidos; 
  • traduzem, na prática, o que está escrito em RDCs, manuais de processamento, diretrizes de cirurgia segura e normas de enfermagem perioperatória. 

Mais do que decorar passos, o ponto-chave é entender o propósito de cada elemento da barreira estéril e manter coerência entre escolha de produtos, processamento na CME e técnica da equipe. 

Com isso, cada procedimento, do consultório ao grande centro cirúrgico, ganha uma camada extra de proteção para quem cuida e para quem é cuidado. 

Fontes 

  • Brasil. Ministério da Saúde / Secretarias de Saúde. Manuais de Processamento de Produtos para a Saúde (CME). 
  • SOBECC – Associação Brasileira de Enfermeiros de Centro Cirúrgico, Recuperação Anestésica e Centro de Material e Esterilização. Diretrizes de Práticas em Enfermagem Perioperatória e Processamento de Produtos para Saúde. 8ª ed. São Paulo: SOBECC, 2020. Informações em: 
    https://www.sobecc.org.br/store-produto-detalhe.php?produto=3 

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