As Lesões por Esforços Repetitivos (LER) e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT) estão entre os principais problemas de saúde relacionados ao trabalho no Brasil, atingindo diversas categorias, incluindo profissionais da saúde.
A boa notícia: uma parte importante desse risco pode ser reduzida com ergonomia bem aplicada, ou seja, com ajustes no posto de trabalho, na organização da rotina e na forma como corpo, mobiliário e equipamentos se relacionam.
É disso que vamos tratar aqui, com foco em consultórios médicos, de fisioterapia, fonoaudiologia, enfermagem, estética e afins.
O que são LER/DORT e por que preocupam tanto na saúde
De acordo com o Ministério da Saúde, LER/DORT são síndromes clínicas que afetam músculos, tendões, articulações e nervos, frequentemente relacionadas a:
- posturas inadequadas mantidas por muito tempo,
- organização de trabalho que não respeita limites do corpo.
Podem causar dor, formigamento, perda de força, limitação funcional e, em casos mais graves, incapacidade temporária ou permanente para o trabalho.
No consultório, o “combo de risco” aparece por todos os lados:
- médico digitando e preenchendo prontuário o dia todo;
- enfermeira que aplica injeções, colhe exames e faz curativos em série;
- recepção em computador o dia inteiro, com telefone, agenda e WhatsApp.
Os Cadernos de Saúde do Trabalhador e materiais de vigilância em saúde reforçam que esses padrões, se repetidos por anos, aumentam muito o risco de LER/DORT.
Ergonomia na saúde: o que a NR-17 orienta
A NR-17 – Ergonomia, do Ministério do Trabalho e Emprego, define diretrizes para adaptar as condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, visando conforto, segurança e desempenho eficiente.
Alguns princípios gerais que falam diretamente com a rotina de consultórios e clínicas:
- o posto de trabalho deve permitir postura adequada e variação de posição;
- mobiliário (cadeiras, mesas, bancadas) precisa ter dimensões e ajustes compatíveis com a atividade;
- a organização do trabalho deve considerar pausas e alternância de tarefas para evitar sobrecarga;
- ambientes devem ser planejados com foco em prevenção de doenças relacionadas ao trabalho e não apenas em “estética” do espaço.
O Ministério da Saúde, em sua Cartilha de Ergonomia, reforça que a ergonomia é uma ferramenta para melhorar a qualidade de vida no trabalho, reduzir LER/DORT e aumentar a sensação de bem-estar.
Ajustes práticos no consultório para prevenir LER
Vamos agora para o que você realmente precisa no dia a dia: ajustes concretos que podem ser feitos no consultório. A lógica aqui é somar pequenas mudanças, não buscar uma “solução mágica” única.
1. Cadeira e postura do profissional
A cadeira (ou mocho) é praticamente “o jaleco da coluna”: se estiver inadequada, tudo ao redor piora.
Materiais técnicos e guias de ergonomia sugerem que, para trabalho sentado:
- os pés fiquem totalmente apoiados no chão ou em apoio para pés;
- joelhos por volta de 90°;
- quadris levemente acima da altura dos joelhos;
- coluna apoiada, com suporte lombar;
- ombros relaxados, sem elevação crônica;
- antebraços apoiados na mesa ou braços da cadeira, também em ângulo próximo de 90°.
Na prática:
- mochos e cadeiras com regulagem de altura permitem adaptar a posição à estatura do profissional e à altura da bancada/maca;
- cadeiras com encosto anatômico ajudam a manter a curva fisiológica da lombar;
- para quem passa parte do tempo na recepção ou frente ao computador, vale avaliar apoios para pés e ajustes de altura de cadeira e mesa.
2. Altura da bancada, mesa e maca
A NR-17 e cartilhas de ergonomia chamam atenção para a altura de superfícies de trabalho: se estão muito baixas, o profissional inclina o tronco; se estão muito altas, eleva ombros e tensiona pescoço.
Boas práticas gerais:
- para atividades de precisão (suturas, pequenos curativos, manipulação de instrumentos): superfície um pouco acima da altura do cotovelo;
- para atividades com mais força ou amplitude (mobilização de paciente, exames físicos mais amplos): superfície em altura que não exija flexão importante de tronco.
Mesas auxiliares com rodízios permitem trazer materiais para perto da zona de trabalho, reduzindo necessidade de alongar braços ou torcer o tronco repetidamente.
Em consultórios que atendem pacientes com mobilidade reduzida, ajustar a altura da maca (ou utilizar degraus de acesso, barras de apoio, auxiliares de transferência) também faz parte da ergonomia: evitar que o profissional faça movimentos de “alavanca improvisada” com a própria coluna.
3. Organização de instrumentos e materiais
Quanto mais longe o material, mais o corpo se “esticará” ao longo do dia. A literatura de ergonomia recomenda que objetos de uso frequente estejam na zona de alcance confortável, próxima ao corpo e na altura entre ombro e cintura.
Alguns ajustes simples:
- organizar bandejas e mesas auxiliares de forma padronizada (sempre no mesmo lado, mesma sequência);
- usar caixas organizadoras, maletas e divisórias para evitar ficar “vasculhando gaveta” em rotação de tronco o tempo todo;
- planejar o consultório para que impressora, computador e materiais de uso constante não exijam torção repetitiva.
4. Computador, prontuário eletrônico e telefone
Mesmo em consultórios, o padrão “escritório” pesa muito: digitação, mouse, tela por horas. Materiais de prevenção de LER/DORT indicam:
- tela posicionada na altura dos olhos ou levemente abaixo;
- distância em torno de um braço estendido entre olhos e monitor;
- teclado alinhado ao corpo, sem rotação de tronco;
- mouse próximo ao teclado, sem exigir abdução excessiva do ombro;
- alternância de mãos em tarefas repetitivas (quando possível).
Para quem passa muito tempo ao telefone, usar viva-voz ou headset evita o clássico movimento de segurar o aparelho entre ombro e orelha.
Alguns consultórios destinam um espaço específico de “estação de digitação” com cadeira, mesa e monitor mais bem ajustados, evitando que o profissional faça registros em notebook sobre o colo, no sofá da recepção ou em bancadas improvisadas.
5. Pausas ativas e variação de tarefa
Não existe ergonomia sem olhar para a organização do trabalho. O próprio Ministério da Saúde, em protocolos de LER/DORT, destaca que pausas, alongamentos e alternância de atividades são parte das medidas de prevenção.
Na rotina de consultório, isso pode significar:
- intercalar atendimentos que exigem longos períodos sentado com outras tarefas em pé (revisão de estoque, discussão de casos com equipe, organização de materiais);
- a cada 1-2 horas, fazer micro-pausas de 3-5 minutos para levantar, mudar posição, alongar pescoço, ombros, punhos e coluna;
- planejar a agenda para evitar blocos muito longos de procedimentos extenuantes (ex.: só cirurgias, só atendimentos odontológicos complexos, só coletas laboriosas).
Cartilhas de ergonomia para servidores públicos e materiais da Fundacentro trazem séries simples de alongamentos para pescoço, ombros, punhos e coluna, que podem ser adaptados para a realidade do consultório.
6. Iluminação e ambiente
Embora LER pareça algo “só de musculatura”, fatores ambientais (iluminação inadequada, calor, ruído) também contribuem para fadiga, tensão muscular e postura defensiva.
Alguns cuidados:
- evitar reflexos intensos na tela do computador e no campo de trabalho;
- usar iluminação indireta ou combinada, mantendo contraste confortável;
- controlar temperatura e ventilação para que o corpo não fique contraído por frio excessivo ou exausto por calor;
- reduzir ruídos excessivos na recepção e áreas administrativas, que aumentam estresse e tensão muscular.
Sinais de alerta: quando a ergonomia já não é suficiente
Mesmo com ajustes, alguns sinais merecem atenção e avaliação por profissionais de saúde (médico do trabalho, fisiatra, ortopedista, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, equipe de saúde do trabalhador):
- dor persistente em coluna, ombros, cotovelos ou punhos que piora com o trabalho;
- formigamento, perda de força, sensação de “mão dormente”;
- limitação para movimentos simples (virar o pescoço, elevar o braço, segurar instrumentos);
- necessidade crescente de medicação para passar o dia.
Protocolos oficiais de LER/DORT orientam que a identificação precoce e o cuidado adequado (que pode incluir afastamento temporário, adaptações de posto, reabilitação) reduzem o risco de cronificação e incapacidade.
Conclusão
Ergonomia no consultório não é luxo nem frescura: é estratégia de saúde do trabalhador e de qualidade assistencial.
Ao adaptar cadeira, mesa, maca, altura das superfícies, posicionamento de equipamentos, organização de instrumentos e ritmo de trabalho, clínicas e consultórios:
- reduzem o risco de LER/DORT em profissionais e equipes;
- aumentam conforto e produtividade;
- prolongam a saúde física e a longevidade da carreira;
- melhoram a experiência do paciente, que é atendido por alguém menos cansado, com mais foco e menos dor.
As normas (como a NR-17) e os materiais do Ministério da Saúde e da Fundacentro dão o “norte” técnico. A adaptação para a realidade de cada consultório passa por olhar o espaço com atenção, ouvir a equipe e fazer ajustes progressivos, começando pelo que é mais simples e de maior impacto.
Fontes