Home care: montar uma maleta completa e leve 

Home care: montar uma maleta completa e leve 

Na assistência domiciliar, a maleta é quase uma extensão do profissional. É ali que ficam os materiais necessários para avaliar, intervir, registrar e orientar o paciente e a família. 

Neste artigo, vamos entender como montar uma maleta de home care completa, mas enxuta, pensando em otimizar o atendimento profissional a domicílio. 

1. Antes da maleta: o que é home care e que tipo de atendimento você faz? 

Atenção domiciliar não é uma “visita social”: é uma modalidade de atenção à saúde que leva para casa ações de promoção, prevenção, tratamento, reabilitação e paliação, de forma planejada e articulada com a equipe de referência. 

As normas de atuação de enfermagem em atenção domiciliar distinguem: 

  • Atendimento domiciliar: ações educativas e assistenciais pontuais ou periódicas, visitas programadas, orientações e procedimentos; 
  • Internação domiciliar: cuidado contínuo e intensivo, com equipe e recursos que se aproximam da estrutura hospitalar. 

A maleta de quem faz atendimento domiciliar ambulatorial (curativos, monitorização de sinais vitais, orientações) pode, e deve, ser mais enxuta do que a estrutura de um serviço de internação domiciliar. 

Por isso, o primeiro passo é responder: 

  • Que tipo de paciente você atende com mais frequência? 
  • Quais procedimentos são realizados na maior parte das visitas? 
  • O que precisa estar sempre com você e o que pode ficar em estoque no serviço (para reposição sob demanda)? 

Essa análise ajuda a evitar a tentação de “levar o consultório inteiro na mala”. 

2. Princípios para uma maleta de home care completa e leve 

Guias de atenção domiciliar e manuais de orientação para profissionais destacam alguns princípios gerais: 

  1. Segurança do paciente e do profissional – materiais para avaliação e procedimentos devem estar limpos, em bom estado e dentro do prazo de validade; 
  1. Adequação ao perfil assistencial – a maleta precisa refletir os tipos de cuidado realmente ofertados; 
  1. Organização por módulos – separar itens por função (avaliação, curativo, medicação, administrativos) facilita acesso e evita esquecimentos; 
  1. Revisão periódica – checagem diária ou em cada plantão, com reposição e retirada de itens vencidos; 
  1. Transporte seguro e ergonômico – peso adequado, alça confortável, identificação clara da maleta como material de saúde. 

A seguir, vamos destrinchar as principais “camadas” da maleta. 

3. Núcleo de avaliação clínica: o “kit de sinais vitais” 

Documentos do Ministério da Saúde e protocolos de home care lembram que monitorização clínica e registro de sinais vitais são parte essencial do cuidado no domicílio. 

Itens básicos: 

  • Estetoscópio – preferencialmente de boa qualidade acústica, versátil para adultos e, se necessário, pediatria; 
  • Esfigmomanômetro (analógico ou digital), com tamanhos de manguito adequado ao perfil de paciente atendido; 
  • Termômetro clínico (digital ou infravermelho), com capinhas ou método de higienização definido; 
  • Oxímetro de pulso portátil – especialmente importante em pacientes com doenças respiratórias, cardiovasculares ou em uso de oxigenoterapia; 
  • Cronômetro ou relógio com ponteiro de segundos – para contagem de frequência respiratória e cardíaca quando necessário; 
  • Lanterna clínica -para avaliação de pupilas, cavidade oral, integridade de pele em locais pouco iluminados. 

Dica para manter leve: opte por equipamentos compactos e multifuncionais (por exemplo, monitores portáteis que combinam aferição de pressão e oximetria, quando fizer sentido para sua prática). 

4. Módulo de biossegurança e higiene das mãos 

Biossegurança é coluna vertebral do home care. Guias de assistência domiciliar e resoluções do Cofen destacam a importância de EPIs, higiene das mãos, descarte de resíduos e limpeza de materiais utilizados no domicílio. 

Na maleta, não podem faltar: 

  • Álcool 70% em frasco portátil ou preparação alcoólica para fricção das mãos; 

Como manter o módulo leve: 

  • transportar quantidades proporcionais ao número de visitas previstas naquele turno; 
  • ter um “estoque de base” no serviço ou no carro, para reposição entre visitas, em vez de carregar grandes volumes na maleta. 

5. Módulo de curativos e procedimentos 

O conteúdo desse módulo varia bastante conforme a carteira de pacientes. Guias do Ministério da Saúde e materiais de serviços de home care indicam que a lista de materiais deve ser adequada ao plano de cuidados e ao tipo de procedimento realizado em domicílio. 

Para uma maleta “base”, voltada a cuidados gerais e feridas de baixa/média complexidade: 

  • Soro fisiológico 0,9% (ampolas ou frascos pequenos) para limpeza de feridas e mucosas, conforme prescrição; 
  • Curativos adesivos simples e curativos tipo “bandagem” para pequenos procedimentos; 
  • Tesoura de ponta romba exclusiva para uso em curativos; 
  • Pinça anatômica e cirúrgica devidamente processadas; 
  • Seringas e agulhas de diferentes calibres (quando a rotina inclui administração de medicação injetável); 
  • Máscaras cirúrgicas extras para paciente/cuidador, quando necessário. 

Conforme o perfil de pacientes (por exemplo, portadores de feridas crônicas complexas), o módulo pode incluir coberturas específicas, mas isso costuma ser planejado caso a caso, com estoque mantido na residência ou fornecido pelo serviço de home care, evitando carregar todo o arsenal na maleta em todas as visitas. 

6. Módulo de documentos e comunicação 

Resoluções e orientações do Cofen/Coren destacam que toda atenção domiciliar deve ser registrada em prontuário, com resumo de dados coletados, intervenções, orientações e plano de continuidade do cuidado. 

Na prática, isso significa incluir na maleta: 

  • Prancheta ou caderno de apoio para anotações (quando o prontuário não é totalmente eletrônico); 
  • Formulários de visita domiciliar (impressos ou fichas para preenchimento e posterior digitalização, conforme rotina do serviço); 
  • Receituário, atestados e guias de encaminhamento (quando o profissional tem atribuição para emitir); 
  • Canetas, carimbo profissional, etiquetas para identificação de materiais ou registros; 
  • Material educativo padronizado para pacientes e cuidadores (folhetos de orientação sobre cuidado domiciliar, sinais de alerta, posições para prevenção de lesões, conforme protocolos). 

Dica: digitalizar o máximo possível dos registros (tablet, aplicativo seguro da instituição) ajuda a reduzir papel, mas exige atenção redobrada à segurança da informação e à LGPD. 

7. Organização por módulos: como montar a maleta de forma inteligente 

Manuais de atenção domiciliar recomendam organizar materiais por categorias e prever reposição sistemática, justamente para evitar esquecimento de itens críticos e sobrecarga de peso. 

Uma lógica prática: 

  • Compartimento 1: Avaliação clínica 
    Estetoscópio, esfigmomanômetro, termômetro, oxímetro, lanterna, relógio. 
  • Compartimento 2: Biossegurança 
    Luvas, máscaras, álcool, protetor ocular, saco de resíduos, coletor de perfurocortantes portátil. 
  • Compartimento 3: Curativos e procedimentos 
    Gazes, soluções, fitas, tesoura, pinças, seringas/agulhas (se aplicável), curativos adesivos. 
  • Compartimento 4: Documentos e educação 
    Formulários, receituário, canetas, materiais de orientação, prancheta. 

Alguns profissionais utilizam necessaires ou estojos menores dentro da maleta, etiquetados por função (“curativos”, “sinais vitais”, “EPIs”), o que facilita muito o manuseio no domicílio. 

8. Como manter a maleta leve na rotina 

Home care envolve deslocamentos frequentes, escadas, transporte público ou distâncias longas a pé. Cansaço e sobrecarga física são riscos reais na prática diária. 

Guias de atenção domiciliar e orientação de home care ressaltam a importância de organização de material e avaliação contínua da necessidade de insumos, como parte da qualidade e segurança do serviço. 

Algumas estratégias para manter a maleta leve: 

  1. Revisar a maleta diariamente 
  1. retirar materiais vencidos, danificados ou que não fazem mais sentido para o perfil de visitas daquela semana; 
  1. checar quantidades mínimas (por exemplo, X pares de luvas, Y gazes, Z curativos). 
  1. Diferenciar “maleta base” e “kits específicos” 
  1. a maleta base tem itens essenciais para qualquer visita; 
  1. kits específicos (ferida complexa, paciente traqueostomizado, terapia nutricional domiciliar) ficam separados e são levados apenas quando há visitas desse perfil. Cadernos de atenção domiciliar em terapia nutricional, traqueostomia e outras condições reforçam a necessidade de organizar kits conforme a linha de cuidado. 
  1. Evitar estoques grandes na maleta 
  1. manter estoque principal na base (clínica, unidade de saúde, sede do home care); 
  1. repor a maleta entre visitas, conforme a agenda. 
  1. Escolher uma maleta ergonômica 
  1. com alças acolchoadas, opção de mochila ou carrinho, e compartimentos bem distribuídos; 
  1. peso total compatível com a condição física do profissional e o trajeto habitual. 

Conclusão 

Por fim, a maleta de home care precisa dialogar com os fluxos de segurança do paciente e biossegurança da instituição: 

  • orientar a família sobre o manejo de resíduos gerados no domicílio (materiais contaminados, perfurocortantes quando houver manipulação local), conforme protocolos municipais e manuais de vigilância; 
  • registrar o atendimento logo após a visita, compartilhando com a equipe de referência (na atenção básica, equipe de home care ou ambulatório responsável); 
  • relatar necessidades de insumos adicionais para aquele paciente, evitando improvisos e garantindo que parte do material fique organizado no próprio domicílio, sob responsabilidade da família e da equipe. 

Assim, a maleta deixa de ser apenas um “inventário de coisas” e passa a ser uma ferramenta de continuidade do cuidado, conectada ao plano terapêutico e às políticas de atenção domiciliar. 

Fontes 

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