Sutura ambulatorial: fios, agulhas e instrumentais essenciais 

Sutura ambulatorial: fios, agulhas e instrumentais essenciais 

sutura de feridas cutâneas é um dos procedimentos mais frequentes em pronto-atendimento e atenção primária. Ferimentos corto-contusos limpos, lacerações superficiais e pequenas cirurgias ambulatoriais (como exérese de lesões de pele) fazem parte da rotina de muitos serviços. 

Para que o desfecho seja bom, não basta “fechar a pele”: é necessário avaliar a ferida, limpar adequadamente, respeitar indicações e usar fios, agulhas e instrumentais compatíveis com o tecido e com o objetivo da sutura. 

Protocolos municipais, manuais de habilidades cirúrgicas e notas técnicas reforçam a importância da padronização e do treinamento da equipe para esse tipo de procedimento. 

Neste artigo, vamos focar na parte da sutura ambulatorial: fios, agulhas e instrumentais
 

O que é sutura ambulatorial e em quais situações é indicada? 

De forma geral, falamos em “sutura ambulatorial” quando o procedimento é realizado em: 

  • unidades básicas de saúde, 
  • pronto-atendimento, 
  • consultórios e ambulatórios especializados, 

para tratar principalmente feridas de pele e anexos ou pequenas lesões de partes moles, em pacientes estáveis. 

POP de sutura cirúrgica em municípios brasileiros e guias de sutura simples costumam restringir o procedimento a: 

  • feridas limpas ou adequadamente irrigadas, 
  • ferimentos superficiais até hipoderme, 
  • lesões em que não exista suspeita de comprometimento de estruturas profundas (nervos, tendões, vasos de maior calibre). 

Profissionais devem seguir as normas locais quanto à competência legal (por exemplo, o que é permitido ao médico, enfermeiro, residente, interno) e aos critérios de encaminhamento para serviços de maior complexidade. 

Fios de sutura: como são classificados e o que importa na prática 

Literatura cirúrgica e revisões específicas sobre fios de sutura mostram que a escolha ideal depende de três grandes eixos: tipo de tecido, tempo esperado de cicatrização e necessidade ou não de retirada posterior do fio. 

Quanto à absorção 

  • Absorvíveis 
  • São degradados pelo organismo ao longo do tempo (por hidrólise ou processos enzimáticos). 
  • Indicados para planos profundos (derme profunda, subcutâneo, estruturas internas), quando não se deseja retornar para retirada de pontos. 
  • Não absorvíveis 
  • Permanecem indefinidamente no tecido, a menos que sejam retirados. 
  • Na sutura ambulatorial de pele, são amplamente usados para pontos externos em nylon ou polipropileno, entre outros. 

Quanto ao material 

  • Naturais – exemplos clássicos incluem seda (não absorvível) e catgut (absorvível), hoje menos utilizados em vários cenários pela maior reação tecidual. 
  • Sintéticos – como poliglactina, ácido poliglicólico, poliglecaprone (absorvíveis) e nylon, polipropileno, poliéster (não absorvíveis). Apresentam, em geral, reação inflamatória mais previsível e menor risco de infecção. 

Quanto à estrutura do fio 

  • Monofilamentares 
  • Um único filamento. 
  • Menor capilaridade e menor aderência de bactérias à superfície. 
  • Podem ser menos maleáveis, com “memória” maior (tendem a voltar ao formato original) e exigem técnica adequada de nós. 
  • Multifilamentares (trançados) 
  • Vários filamentos entrelaçados. 
  • Maior maleabilidade e facilidade para dar nós; boa segurança de nó. 
  • Maior capilaridade, podendo reter mais fluidos e microrganismos, o que demanda cuidado em feridas potencialmente contaminadas. 

Quanto ao calibre 

O calibre é descrito em números (por exemplo: 0, 2-0, 3-0, 4-0, 5-0). Quanto maior o número de zeros, mais fino é o fio. Em suturas de pele: 

  • 2-0 e 3-0 – regiões com maior tensão, tronco, couro cabeludo em adultos; 
  • 4-0 – uso frequente em membros e tronco; 
  • 5-0 e 6-0 – áreas delicadas (face, pescoço, mãos), dependendo da espessura da pele e da necessidade estética. 

Fios mais usados em sutura ambulatorial de pele 

Artigos e manuais de habilidades cirúrgicas citam como muito frequentes: 

  • Nylon monofilamentar não absorvível – amplamente usado em pontos simples de pele, pela boa resistência e baixa reação tecidual. 
  • Polipropileno monofilamentar – alternativa não absorvível com boa resistência e baixa reatividade. 
  • Fios absorvíveis sintéticos trançados (ex.: poliglactina, ácido poliglicólico) – comuns em suturas subdérmicas e em planos profundos, para reduzir o número de pontos externos. 

Na Utilidades Clínicas, a categoria de Fio de Sutura inclui fios absorvíveis e não absorvíveis, monofilamentares e trançados, em diferentes calibres, indicados para sutura de pele e tecidos moles em contextos ambulatoriais e cirúrgicos

Agulhas para sutura: formato, ponta e indicação 

A agulha é o componente que “abre caminho” no tecido para a passagem do fio. Manuais de técnica operatória e habilidades cirúrgicas descrevem a agulha em três partes: ponta, corpo e olho (ou área de fixação do fio, no caso de agulhas atraumáticas). 

Agulhas retas x agulhas curvas 

  • Retas – mais usadas em suturas de pele com boa exposição, mucosa oral em alguns contextos ou em procedimentos específicos. 
  • Curvas – são as mais comuns em sutura cutânea e de tecidos profundos, pelo melhor controle em campos cirúrgicos menores. Podem ser 3/8, 1/2, 5/8 de círculo, entre outros formatos. 

Tipo de ponta 

  • Cortantes (triangulares) – têm bordas cortantes, indicadas para pele e tecidos mais resistentes. A ponta de corte reverso reduz risco de laceração indesejada do tecido e é muito usada em sutura cutânea. 
  • Cilíndricas (tapercut ou round) – penetram por divulsão suave, mais adequadas para vísceras ocas e tecidos friáveis; podem aparecer em contextos específicos de ambulatorização de pequenos procedimentos. 

Agulhas traumáticas x atraumáticas 

  • Traumáticas – possuem olho para enfiar o fio; são menos utilizadas em muitos serviços pela maior agressão tecidual. 
  • Atraumáticas – vêm com o fio já crimpado na extremidade da agulha (fio agulhado), reduzindo trauma e vazamento pelo orifício. São padrão em grande parte dos fios cirúrgicos modernos. 

Na sutura ambulatorial de pele, é muito comum o uso de agulha curva 3/8 ou 1/2 de círculo, cortante ou corte reverso, acoplada a fio de nylon ou polipropileno em calibres como 3-0, 4-0 ou 5-0, conforme localização e necessidade estética. 

Instrumentais básicos para sutura ambulatorial 

Manuais cirúrgicos e de habilidades para acadêmicos são bastante consistentes ao listar um “kit mínimo” de instrumentais para sutura de pele: porta-agulha, pinças, tesoura e materiais auxiliares. 

Porta-agulha 

É o instrumento responsável por segurar a agulha com firmeza durante a sutura, permitindo movimentos controlados. Normas técnicas da ABNT/ISO tratam dos requisitos para porta-agulha em termos de resistência, segurança do travamento e qualidade do aço. 

Na prática ambulatorial, alguns modelos frequentes: 

  • Mayo-Hegar – muito usado em sutura de pele e suturas gerais. 
  • Olsen-Hegar – combina porta-agulha com área de corte de fios, reunindo duas funções em um só instrumento. 
  • Modelos específicos para suturas delicadas (como Castroviejo) aparecem em áreas como oftalmologia, microcirurgia e procedimentos mais finos. 

Na UC, a categoria de Porta-agulha reúne diferentes tamanhos e modelos, como Mayo-Hegar, Olsen-Hegar, Crile-Wood e Castroviejo, com foco em durabilidade e compatibilidade com processos de esterilização. 

Pinças 

Em sutura de pele, são comuns: 

  • Pinça anatômica – indicada para manipular tecidos mais frágeis, com menor risco de trauma; 
  • Pinça dente de rato (cirúrgica) – usada quando se deseja preensão mais firme da pele, especialmente em áreas com maior espessura. 

Outras pinças (hemostáticas, de campo e para instrumentos) podem compor bandejas mais completas. 

Tesouras 

A maioria dos kits contempla ao menos: 

  • uma tesoura para tecidos, 
  • uma tesoura mais delicada, como a tesoura Iris, muito usada para corte de fios e retoques finos em suturas. 

Na Utilidades Clínicas, a linha de Instrumental inclui tesouras Iris e outros modelos, pinças específicas para manuseio de instrumentos e marcadores de silicone para identificação de conjuntos, auxiliando na organização dos estojos de sutura. 

Kits de sutura 

Alguns serviços optam por kits de sutura descartáveis, que já incluem campos, pinça, porta-agulha, tesoura e gazes, reduzindo o trabalho de montagem e reprocessamento em contextos específicos. 

Na UC, há opções de kits de sutura prontos, com registro na Anvisa, além de bandejas individuais de instrumentais reprocessáveis para serviços com CME estruturada. 

Montando um conjunto básico para sutura ambulatorial 

Protocolos institucionais costumam descrever o conteúdo mínimo de uma bandeja de sutura. De maneira geral, para sutura simples de pele em contexto ambulatorial, podem ser necessários: 

  • porta-agulha (por exemplo, Mayo-Hegar 14–18 cm); 
  • 1 pinça anatômica; 
  • 1 pinça dente de rato; 
  • 1 tesoura de fios (ou Iris); 
  • campos e campos fenestrados; 
  • gazes e compressas; 
  • solução para antissepsia da pele; 
  • fios de sutura adequados ao local (ex.: nylon 3-0/4-0/5-0 agulhado, polipropileno ou absorvível sintético para subdérmica); 
  • materiais para anestesia local, quando indicados; 
  • luvas, máscaras, aventais e outros EPIs; 
  • recipiente adequado para descarte de perfurocortantes. 

Além da escolha dos materiais, é fundamental garantir que todos os instrumentais reprocessáveis tenham passado por limpeza, inspeção, embalagem e esterilização de acordo com normas de processamento de produtos para saúde e orientações da Anvisa. 

Segurança, treinamento e protocolos: muito além do material 

A escolha de bons fios, agulhas e instrumentais é apenas uma parte da segurança em sutura ambulatorial. POPs de sutura simples e notas técnicas de órgãos reguladores reforçam: 

  • necessidade de indicação correta do procedimento, 
  • avaliação do risco de infecção e da necessidade de antibioticoterapia e vacinas (por exemplo, tétano), 
  • domínio da técnica por parte do profissional, 
  • respeito aos limites de atuação de cada categoria profissional, 
  • monitoramento do reprocessamento de instrumentais, 
  • rastreabilidade de materiais críticos (como fios de sutura e kits estéreis). 

Notas técnicas recentes da Anvisa, inclusive para mutirões de saúde, reforçam a orientação de sempre conferir indicadores de esterilização e rastreabilidade de instrumentais antes da utilização, tanto em centros cirúrgicos quanto em procedimentos ambulatoriais. 

Conclusão 

A sutura ambulatorial é um procedimento cotidiano, mas que exige conhecimento técnico e responsabilidade. Escolher bem o fio, a agulha e o instrumental é parte central desse cuidado: 

  • fios absorvíveis e não absorvíveis, mono ou multifilamentares, devem ser ajustados ao tecido e ao tempo de suporte necessário; 
  • agulhas com formato e ponta apropriados reduzem trauma e melhoram a precisão da sutura; 
  • instrumentais de qualidade, bem processados e organizados em kits claros, trazem segurança e fluidez à rotina. 

Aliar esse conjunto de materiais a protocolos bem escritos, treinamento contínuo e atenção às normas de biossegurança é o que transforma “pontos de pele” em assistência qualificada, com melhor cicatrização, menor risco de complicações e maior conforto para o paciente. 

Fontes  

  • Zogbi L et al. Sutura cirúrgica: revisão de princípios básicos. Vittalle, 2021. Acessar em (por título): 
    https://www.scielo.br 
  • Brasil. Ministério da Saúde / Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde. POP – Sutura Cirúrgica em Ferimentos de Pele, Anexos ou Mucosa. https://bvsms.saude.gov.br 
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Normas e informes técnicos sobre reprocessamento de instrumentais cirúrgicos e processamento de produtos para saúde. 
    Acessar em: https://www.gov.br/anvisa 

Leia também: